quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Samodães - o Foral de D. Manuel (parte I)





A comemoração dos quinhentos anos do foral de D. Manuel I a Samodães levou-me a olhar para a terra do meu avô, onde, desde a meninice passo sempre alguns dias dos meses de verão.
Pouco sei do início de Samodães, mas não é difícil aceitar que, depois de Fernando Magno de Leão em 1057/1058 ter conquistado aos mouros os castelos de Lamego e S. Martinho de Mouros, toda esta região de Samodães tenha também sido incluída no território cristão.
Sabemos que em 1133, D. Afonso Henriques doou a Mendo Viegas da casa de Baião (uma das principais casas fidalgas do país que fazia parte da casa de Ribadouro de Egas Moniz – “o aio”) a terra de Çamudannis.. A terra doada era composta por uma série de casais (grosso modo casas de lavoura) que não formavam ainda uma freguesia.

“Dizem os antigos que esta freguesia teve primeiro uns poucos de casais e que deles se fez mercê a um fidalgo da casa de Baião, consignando-lhe a quarta parte dos frutos das fazendas que nesse tempo se cultivavam, a saber, pão, vinho e castanhas.” Isto escreveu o padre José Bernardo Machado em abril de 1758 nas Memórias Paroquiais de Samodães.
Posteriormente, os habitantes dos casais chegaram à conclusão que pagavam demais para os benefícios que tinham e as suas diligências levaram a que acordassem com o seu donatário o pagamento, não da quarta parte, mas sim da décima parte das suas colheitas, tal como era devido à igreja (o dizimo).
Em data posterior, Samodães passou para a posse do rei, sendo uma terra “reguenga” – própria do rei.
D. Manuel I, depois de chegar ao trono, resolveu rever todos os forais existentes dado se considerar que muitas das suas disposições estavam já desatualizadas. Havia também o interesse em aumentar as rendas da coroa.
No dia 26 de junho de 1514, D. Manuel deu novo foral a Samodães.

Em próximo "post" veremos as principais disposições do foral. 



sexta-feira, 6 de junho de 2014

Memórias Paroquiais IV

As questões colocadas seguidamente, tinham a ver com os principais produtos da terra  e organização civil:

Pergunta - Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem em maior abundancia?
Resposta - Os moradores desta terra colhem em maes abundancia trigo, milho, e vinho e menos de outros frutos como castanhas e frutas.
Pergunta -  Se tem juíz ordinário, etc., camara ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra e qual é esta?
Resposta - Tem juiz ordinario e camera, e só neste concelho entra corregedor e provedor como fica dito, e hé comarca de Lamego.
Pergunta - Se é couto, cabeça de concelho, honra ou behetria?
Resposta - Hé cabeça de concelho.
Pergunta -  Se há memória de que florescessem, ou dela saíssem alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas?
Resposta - Não consta haver, nem ter havido homens dotados das virtudes que se progunta.
Pergunta - Se tem feira e em que dias e quantos dura, se é franca ou cativa?
Resposta - Tem huma feira ou mercado franco […] todos os primeiros dias de cada mês.
Pergunta -  Se tem correio e em que dias da semana chega e parte; e se o não tem, de que correio se serve e quanto dista a terra aonde ele chega?
Resposta - Não tem esta terra correio, nem estafeta, e se serve do correio da cidade de Lamego, que dista deste concelho duas legoas, pello que padece esta terra grande incomodidade.

Pergunta - Quanto dista da cidade capital do bispado e de Lisboa capital do reino?
Resposta - Fica distante esta terra da cidade capital do bispado, que hé Lamego, duas legoas, como fica dito, e de Lisboa, capital do Reino cincoenta e seis legoas.
Pergunta - Se tem alguns privilegios, antiguidades, ou outras coisas dignas de memória?
Resposta - Nada tem no que se pregunta neste item.

Pergunta - Se há na terra ou perto dela alguma fonte, ou lagoua célebre e se as suas águas tem alguma especial qualidade?
Resposta - Também nada tem neste.
Pergunta - Se for porto de mar, descreva-se o sítio que tem por arte ou por natureza, as embarcações que o frequentam e que pode admitir?
Resposta - Também nada.
Pergunta - Se a terra for murada, diga-se a qualidade de seus muros; se for praça de armas, descreva-se a sua fortificação. Se há nela ou no seu distrito algum castelo ou torre antiga e em que estado se acha ao presente?
Resposta - Também nada.
Pergunta - Se padeceu alguma ruina no Terremoto de 1755 e em quê e se está reparada?
Resposta - Também nada.
Pergunta  - E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatorio.
Resposta - Também nada.

Nesta série de respostas o pároco revelou algum desconhecimento, o que é estranho dado o pouco tempo decorrido desde o tremor de terra de 1755, das destruições verificadas na casa da Soenga, pois sabemos que o atual edifício do século XVIII (iniciada a construção por volta de 1779) substituiu um do século XVI gravemente danificado quando do terremoto.