terça-feira, 20 de outubro de 2015

Barcas de passagem


Viajar na idade média sempre constituiu um problema. Caminhos de terra batida facilmente destruídos pelos temporais, com muitos rios cortando os itinerários, as elevações e serras dificultando a progressão, viajar devia ser de facto uma grande aventura.

A passagem dos rios era, nos locais onde não havia pontes, garantida pelas “barcas de passagem”.

No que nos interessa hoje, vamos tentar dar uma ideia do que seria a barca de passagem de Porto de Rei.

Na idade média, a constituição ou manutenção de barcas de passagem eram “serviço de Deus”, havendo assim muitos legados pios para a sua manutenção. Sabemos que a barca de Porto de Rei (tal como as de Barqueiros e Moledo) foi instituída pela rainha D. Mafalda, mulher de D. Afonso Henriques. Esta barca era gratuita (barca de por Deus), tendo a rainha deixado em testamento para manutenção da mesma quatro casais em S. Martinho de Mouros. A barca era servida por três barqueiros, havendo a obrigatoriedade de, quando faltasse um deles o concelho o substituísse de imediato.

No entanto, no reinado de D. Fernando, alguns homens poderosos do concelho dirigidos por João Rodrigues Portocarrero retiraram do serviço da vintena do concelho (vintena era o conjunto de vinte fogos em que os concelhos estavam divididos para efeitos judiciais ou fiscais) um Pedro Domingues, substituindo-o pelo barqueiro de nome João Dias, desfalcando assim o pessoal afecto à barca. A população sentiu-se prejudicada pois consideravam o barqueiro como pessoa diligente e sempre pronta ao serviço e o concelho e homens bons reclamaram para o então regente, Mestre de Aviz.

Este determinou que a situação anterior fosse retomada e decidiu que os juízes do concelho repusessem de imediato a situação e que João Dias retomasse de imediato o seu lugar.

A carta de D. João, de 6 de dezembro de 1385, reforça ainda a sua decisão com o privilégio do barqueiro não servir naquele ou noutro qualquer serviço.

 



Chancelaria de D. João I, livro 1 folhas 166

 







 

 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Senhor do Calvario de 1944

A festa do Senhor do Calvário de 1944 trouxe alguns problemas à freguesia, sendo noticiado na "Voz de Lamego" de 7 de setembro que, por se ter feito um arraial nocturno sem autorização (de acordo com as regras diocesanas da altura, havendo arraiais nocturnos, não haveria festa religiosa),  o Bispo do Porto e Administrador Apostólico de Lamego (D. Agostinho de Jesus e Sousa tinha saído da diocese de Lamego por nomeação para bispo do Porto e ainda não havia bispo nomeado) decidiu proibir a visita pascal em toda a freguesia de S. Martinho de Mouros no ano de 1945 e interditar a banda de musica de Mesão Frio nas duas dioceses por ter participado no referido arraial.
Como se vê o arraial saiu caro aos habitantes de S. Martinho de Mouros.
No entanto, com a nomeação de D. Ernesto Sena de Oliveira como novo bispo de Lamego, as pessoas de S. Martinho aproveitaram para expor o seu caso e viram o mesmo ser acolhido.
A "Voz de Lamego" de 5 de abril de 1945 dizia: "O bispo de Lamego, atendendo aos muitos pedidos  da população e ao parecer favorável do pároco, decidiu levantar as penas lançadas contra a paróquia de S. Martinho de Mouros e permitir de novo o culto na capela do Senhor do Calvário e a visita pascal."
Só a pobre banda de música é que não viu a sua pena indultada.
Como se vê nesse tempo as coisas fiavam fino.....

quarta-feira, 18 de março de 2015

O início do futebol em S. Martinho de Mouros

Do jornal  "A Fraternidade" nº 627 de 30/12/1922, retirei a seguinte notícia:

"Jogo de foot ball entre o Lamego Foot Ball Club e o S. Martinho de Mouros Foot Ball Club realizado em S. Martinho de Mouros,

À chegada dos nossos àquela risonha povoação era aguardada pelos elementos do S. Martinho de Mouros Foot Ball Club e outras pessoas de representação que nos dispensaram uma calorosa recepção, subindo ao ar numerosos foguetes, enquanto uma afinada tuna fazia ouvir os acordes duma inesperada marcha ao som da qual percorremos a pitoresca povoação até ao largo da Feira Nova em que o desafio teve lugar. Durante o trajecto, porém, gentilíssimas damas lançaram flores sobre os visitantes que em extremo sensibilizados agradeciam tão carinhosa recepção.
Após uma hora de descanso iniciou-se o desafio perante numerosa assistência dando as gentilíssimas damas que em elevado número se achavam presentes uma nota de cor e alegria singularmente impressionantes.
.../...
Dado o pontapé de saída pelo Exmº Senhor João Augusto da Encarnação figura de destaque de S. Martinho de Mouros e um grande aficionado do foot ball apesar dos seus cabelos já um tanto grisalhos, travou-se a luta em que os de Lamego desde logo manifestaram a sua superioridade, resultando ficarem vencedores por 4.
Acabado o match foi ofertado um faustoso jantar a todos os jogadores sendo trocados efusivos brindes pelo futuro dos dois clubes e pela mútuas boas relações sportivas.
.../...
Dançou-se animadamente até às três da madrugada, reinando sempre o maior entusiamo."

Bons tempos em que o desporto era assim encarado.
Ainda me lembro de, na minha meninice, assistir a disputados jogos na Feira Nova, mesmo ao pé de casa, especialmente os épicos jogos com os rapazes da Ribeira de Barrô.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

A "Roda de Expostos" em S,. Martinho de Mouros

Em tempos falei aqui de um documento que encontrei num Diário do Governo de 1838 sobre a criação da "Roda" de S. Martinho de Mouros (aqui).
Numa leitura apressada dos livros de assentos de baptismo de 1840 a 1847 encontrei de facto alguns referentes a crianças depositadas na "Roda" municipal.

Em 1840 - 1 rapaz (José)
1841 - 1 rapaz e 2 raparigas
1842 - 3 rapazes
1843 - 13 rapazes e 10 raparigas
1844 - 6 rapazes e 7 raparigas
1845 - 10 rapazes e 10 raparigas
1846 - 10 rapazes e 7 raparigas
1847 -  4 rapazes e 1 rapariga

A "Roda" funcionava no lugar de Sub Adro e era seu responsável Jerónimo de Oliveira, sendo "rodeira" sua mulher Josefa Vitória. A partir de 1845 aparece também como "rodeira" uma Ana Cuchica, natural de Casal Mato.
Por norma, os padrinhos destas crianças foram o responsável da "Roda" e a sua mulher. Encontrei uma excepção, em  fevereiro de 1842, em que a criança foi exposta com um bilhete em que se pedia que lhe fosse dado o nome de Martinho e os padrinhos fossem o Senhor do Calvário e Nossa Senhora da Soledade, o que foi cumprido.
A "Roda" em S. Martinho deve ter terminado com a extinção do concelho em 1855, passando então a funcionar apenas a de Resende.

Talvez ainda volte a este assunto.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Correios em S. Martinho de Mouros

Do jornal "A Fraternidade" de 21 de julho de 1923, recolhi a seguinte notícia:


"Já se encontra aberta ao público a estação teléfono-postal da linda e rica povoação de S. Martinho de Mouros. Deve-se este melhoramento à acção do Dr. Alfredo de Sousa como devotado deputado pelo circulo e aos esforços contínuos do senhor João Encarnação, importante comerciante de S. Martinho de Mouros.
.../...
S. Martinho de Mouros bem o merece pois é uma importantíssima povoação, melhor do que muitas vilas e sedes de concelho."


Durante todo o século XX S. Martinho teve a sua estação de correios. Infelizmente, com o século XXI fechou.
Malefícios do progresso.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Ensino em S. Martinho




Há tempos falei aqui da nomeação do professor José Pinto da Fonseca como professor de S. Martinho de Mouros em 1878. (aqui)
Houve uma ligação entre este professor e a minha família, foi padrinho de um tio avô meu e professor dos seus irmãos e por isso, ao encontrar uma noticia de 1918 no jornal “A Fraternidade”, em que lhe era prestada uma homenagem, pensei que não podia deixar de falar nisso.
Em 13 de fevereiro de 1918, por motivo da sua aposentação quando completou 40 anos de serviço, foi-lhe prestada uma homenagem. Foram oradores nessa sessão o pároco de S. Martinho, padre José Teixeira Dias e Aires de Mendonça de S. João de Fontoura.
O elogio oficial foi feito pelo farmacêutico Francisco C. Gonçalves que falou das qualidades do homenageado, da sua entrega ao ensino e do exemplo que deixava a todos os que lutavam por uma maior escolarização das populações.
Depois de cantada "A Portuguesa" e outras canções alusivas pelos alunos da escola de S. Martinho, toda a gente se encaminhou para o largo da Feira Nova, onde se realizou a festa da árvore.
Bons tempos em que a dedicação e profissionalismo das pessoas eram reconhecidos.




segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

S. Martinho de Mouros e o comboio


Recentemente, ao ler jornais de Lamego do início do século numa investigação sobre a minha família, encontrei no jornal “O Progresso” nº 1121 de 29 de setembro de 1906 uma notícia que falava do interesse das populações do concelho de Resende de uma ligação ao comboio.
Sempre se soube do interesse de Lamego estar ligada ao caminho de ferro e, chegou mesmo a haver projectos (e iniciaram-se mesmo obras) para uma ligação entre a Régua e Viseu, passando por Lamego. Agora que Resende (especialmente S. Martinho, como veremos) também tivesse lutado por uma ligação, isso, para mim fui surpresa.
Mas, vejamos a notícia:

“NOVA LINHA FÉRREA – Aos povos de Resende.
Dizem noticias da imprensa que houve há pouco grande regozijo público em Arouca ao chegar ali o engenheiro encarregado de estudar uma linha férrea que vai daquela vila a Sta Eufémia, seguindo por Alvarenga, Castro D’Aire, Lamego, Resende e Cinfães, atravessando o rio e indo entroncar em Mosteirô na linha do Douro. Ora aqui têm os povos de Resende e especialmente da pitoresca e adiantada freguesia de S. Martinho de Mouros, onde, não há muito as pessoas mais gradas se agitavam no empenho de conseguir que a nossa linha férrea lhes passasse à porta, o quinhão de viação acelerada que lhes está destinado e para realização do qual devem gastar todas as suas reservas de actividade e bons desejos.
Correndo atrás do desvio do nosso caminho de ferro que não é mais que a continuação do de Chaves, bem nos queria parecer que se cansavam inutilmente.
Com intuitos amigos lhes fizemos ver isso e os mais entusiasmados no movimento, aliás muito simpáticos, como são todos aqueles que assentam em bases de amor local, assim o compreenderam logo, esmorecendo e desistindo da campanha.
Agora somos nós a aconselhar os povos do conselho de Resende que trabalhem sem descanso, visto que já têm lugar marcado na galeria das terras destinadas aos grandes benefícios públicos…”

Como se vê, havia um movimento, dinamizado pelas pessoas mais influentes de S. Martinho, para que houvesse uma ligação à linha que se iria construir entre a Régua e Lamego.
No entanto, Lamego não via com bons olhos essa pretensão por poder “atrapalhar” o que tinham já conseguido. O projecto de ligação entre Mosteirô e Arouca caiu do céu para desviar as atenções dos povos de Resende.
Sabemos hoje que nada destes projectos foi avante. A ligação Régua/Lamego ainda arrancou, mas morreu na praia. A que aqui nos ocupa, penso que nem sequer começou no papel.

Mas que havia quem lutasse pela sua terra, isso havia.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Samodães - o Foral de D. Manuel (parte II)





O foral de Samodães é do mesmo tempo dos forais de Lamego (3/7/1514), Penajóia (15/7/1514), Sande (17/5/1514), etc, e insere-se na reformulação e revisão de forais das primeiras décadas de quinhentos.
Samodães era uma terra reguenga (pertencia ao rei) e, após inquirições feitas, eventualmente aos mais antigos moradores das terras, teve em 26/6/1514 o seu foral.
Em primeiro lugar foram estabelecidos os, chamemos-lhe assim, impostos a pagar:
  • A sexta parte de todo o trigo, milho, cevada e centeio
  • A sexta parte do linho
  • A quinta parte do vinho e das castanhas
  • Alqueire e meio do azeite pago no lagar por cada um dos 25 casais da terra, quer tenham quer não tenham (o que quer dizer quer seja bom ou mau ano)
  • Cento e quarenta reais, pagos pela Páscoa, por cada um dos 25 casais, em compensação por outros impostos que constavam no foral antigo e que a partir de agora não seriam cobrados.
     
    Seriam dois habitantes da terra e um mordomo real que, nas eiras e lagares teriam que fazer a divisão, retirando a parte pertencente ao rei. Um outro habitante teria a seu cargo o fornecimento de vasilhas e tulhas para recolha da parte do rei. Este habitante, bem como o mordomo ficavam isentos de pagamento dos impostos no ano em que exercessem o cargo.
     
    Como contrapartida o rei garantia a manutenção das liberdades e isenções de que já gozavam e ainda garantia que ninguém poderia ser citado judicialmente ou penhorado senão pelo mordomo. As penas a aplicar seriam as mesmas que constavam do foral da cidade de Lamego.
     
    Estavam assim criadas as bases que permitiriam aos habitantes saber com o que podiam contar