segunda-feira, 14 de abril de 2014

Memórias Paroquiais III



As perguntas que se seguem no inquérito, tinham a ver com a organização da paróquia. Vamos então ver como esta se organizava.

pergunta - Se a paróquia está fora ou dentro do lugar e quantos lugares ou aldeias tem a freguesia todos pelos seus nomes?
resposta -  Esta parochia está no meio da freguezia, isto hé, a igreja e não tem junto a si maes cazas que as da rezidencia. E o maes que contém este item vai respondido ao 5º supra.

pergunta - Qual é o orago, quantos altares tem e de que santos, quantas naves tem; se tem irmandades, quantas e de que santos?
resposta - O orago desta igreja e freguesia hé Sam Martinho confessor, chamado Sam Martinho de Mouros. Tem cinco altares com o altar mor o qual tem o santo orago no lado direito, e no esquerdo Sam Francisco de Xavier, e no meio a imagem de Nossa Senhora da Conceição, e neste altar está o sacrario. Ao lado direito estão does altares, e hum está a imagem de Nossa Senhora do Rozário, e em outro o Senhor das Chagas. No lado esquerdo estão outros does altares, o primeiro tem a imagem de Sam Sebastiam, e último Nossa Senhora do Desterro. Não tem a igreja naves. Tem duas irmandades, huma dos Passos, e outra das Almas.

pergunta - Se o pároco é cura, vigário, reitor, prior ou abade e de que apresentação é e que renda tem?
resposta - O parocho desta igreja hé reitor, hé da aprezentação da Univercidade de Coimbra. Não tem o reitor de renda e congrua maes do que vinte e sete mil réis, e sessenta alqueires de centeio, e o pouco lucro do passal e do pé de altar. Só tem o reitor a terceira parte porque além de ser tenuissimo, levam os beneficiados desta Colegiada as duas partes, sendo que todo o pezo parochial carrega as costas do pobre reitor. E hé igreja munto trabalhoza, por mal situada a parochia, e ser o povo munto em numaro, e não pode o reitor com tam tenuissima renda, que não chega a cem mil réis, cumprir com as muntas despezas a que está obrigado o parocho, poes hé tam pobre a dita parochia que não tem o parocho com que possa pagar a hum cura, sendo que leva a Universidade cada anno de rendas dos dizimos quatro mil cruzados, e o Cabido da Sé de Lamego does, e praza a Deos que Sua Magestade, informado do exposto, mande acrescentar ao reitor desta igreja congrua sufficiente por serviço de Deos e admnistração de justiça.

pergunta - Se tem beneficiados, quantos e que renda tem e quem os apresenta?
resposta - Tem esta Collegiada outo benefficiados, terão de renda a maior parte delles sessenta mil réis, hum anno por outro, e outros a cincoenta. São os taes benefficios da aprezentação do reitor.

pergunta Se tem conventos e de que religiosos ou religiosas e quem são os seus padroeiros?
resposta Não tem esta freguezia conventos, nem religiozos.

pergunta - Se tem hospital, quem o administra e que renda tem?
resposta - Não tem hospital.

pergunta - Se tem casa de misericórdia e qual foi a sua origem e que renda tem; e o que houver notavel em qualquer destas coisas?
resposta - Não tem caza de Mizericordia.

pergunta- Se tem algumas ermidas e de que santos e se estão dentro, ou fora do lugar e a quem pertencem?
resposta - Tem pelo destrito da freguezia varias capellas, a saber, a do Senhor do Calvario, aonde vão algumas poucas romages, e de Santa Anna, a de Sam Pedro, Santa Catherina, a Senhora da Ajuda, a Senhora do Bom Despacho, a Senhora da Vitoria, Sam Sebastiam, a Senhora do Campo. Estas são do povo.

pergunta - Se acodem a elas romagem, sempre ou em alguns dias do anno e quais são estes?
resposta - Destas capellas só tem romaria a de Sam Pedro, e da Senhora do Campo, e algumas freguezias que vem em o mês de Maio a comprir alguns votos.


Como se pode ver, o questionário era exaustivo e permitia que as autoridades centrais ficassem com uma ideia muito clara da organização da paróquia. o Reitor não deixou passar a oportunidade e lamentou-se dos fracos proveitos que tinha. o pároco de S. Martinho era nomeado pela Universidade de Coimbra, que levava a maior parte da renda e o bispado de Lamego ainda tinha direito a uma parte. A paróquia podia ser trabalhosa, mas o Reitor tinha oito padres para o ajudar.



quinta-feira, 10 de abril de 2014

Memórias Paroquiais II

Voltamos hoje às respostas do padre João da Cruz ao inquérito de 1758:

pergunta - Quantos vizinhos tem (e o número de pessoas)?
resposta - Consta de trezentos e quarenta e cinco fogos esta freguezia, e tem mil e dezassete pessoas da sacramento da comunhão e menores de confissão somente cento e duas, que com o numaro das maiores fazem o numaro de mil cento e dezanove.

pergunta - Se está situada em campina, vale ou monte e que povoações se descobrem daí e qual a distância?
resposta - Está esta terra situada em hum valle que tem longitude legoa e meia, e de latitude huma legoa, principiando dos altos cumes das serras que o cercam pellos lados direito e esquerdo, cuja eminência de montes hindo munto a pique vão estreitando no dito valle, da forma que no fundo fica de munto modica largueza. Confina o dito val de a parte do Norte com o rio Douro, por cujas ribanceiras faz dilatada largueza, ficando o outro extremo de longitude direito ao Sul. Delle e suas costas para a parte do Norte se descobrem a villa do Baiam, Frende, Barqueiros, Mezam Frio, a serra do Maram com distancia esta de três legoas, e aquellas de huma legoa, da parte de além do Douro que hé já Provincia do Minho, ficando o dito valle sercado de altas serranias pella parte do Nascente, Poente e Sul, de forma que do dito valle e suas costas se não descobre mais terra alguma.

pergunta - Se tem termo seu, que lugares ou aldeias compreende, como se chamam e quantos vizinhos tem?
resposta - Na primeira pregunta vai respondido que hé concelho e termo. Terá o dito concelho três mil vezinhos, em quatro freguezias de que consta, Sam Martinho de Mouros que tem lugares todo o concelho que fica junta à igreja, que hé cabeça da villa, Sellores, Cazal de Aves, Testamento, Portal, Hospital, Peneda, Outeiro, Povoa, Santa Ouvaia, Silva, Rua, Cardozo, Pinheiro de Barregãns, Telhado, Carvalhão, Cazal, e Matto, Calçada, Suadro, Chapal, Cantim, Ponte, Cantim de Baixo, Pinheiro, Villa Verde, Cazaes, Castello, Covello, Nugeiras, Matta, Fonte, Outeiro, Bairrais, Soenga, Quintans, Portella, Pasto, Villa Infesta, Cazal, Themonde, Pera Longa, Lama Grande, Fontainhas, Mainsa, Santa Comba, Valle, Corredoura, Feira, Cravelho, Concelho, Eido, Ribeiro, que por todos fazem o numaro de cincoenta e does pertencentes à freguezia de Sam Martinho de Mouros. Tem maes o dito concelho três freguezias que são Barro, Paus, Sam Joam de Fontoura, cujos parochos tem ordem para darem conta dos vezinhos e maes que se pregunta ao que elles hão-de responder.



Ficamos assim com uma ideia muito clara de como era a freguesia em 1758.



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Memórias Paroquiais I

Em 1758, pretendendo saber quais os prejuízos causados pelo tremor de terra de 1755, foi pedido a todos os párocos do pais que respondessem a algumas questões.
Vamos ver o que escreveu o Reitor de S. Martinho de Mouros, padre João Cruz:


Pergunta - Em que província fica, a que bispado, comarca, termo e freguesia pertence?
Resposta - Hé esta terra chamada o concelho de Sam Martinho de Mouros, denominação que me persuado lhe provém ou de ser antigamente habitada de Mouros, ou de barbaridade dos costumes de seos habitadores, porque de ordinario são soberbos e altivos, ainda que pobres na maior parte, qualidades que suponho participam de Jupiter, por ficar mais chegada a este tenitroante prezidente dos ares, a situação deste clima, pões fica nos maes altos confis da Beira Alta. Suposto a maior parte da habitação seja em hum formozo e bello valle, cujas qualidades em seo lugar descreverei, pertence ao bispado de Lamego, donde também hé comarca, hé termo separado chamado, e também a freguezia de Sam Martinho de Mouros.


Pergunta - Se é do rei, ou de donatario e quem o é ao presente?
Resposta - Hé de El-Rei. Nella entram corregedor e provedor.


Estranha resposta!
Fraca ideia tinha o pároco dos seus paroquianos.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Roda de Expostos




As primeiras referências à recolha de crianças enjeitadas vêm de 1321 em Santarém com a criação de um Hospital de Meninos. Posteriormente, D. Manuel I criou em 1504 uma Casa de Meninos no Hospital de Todos os Santos em Lisboa.
Mas foi D. Maria I quem determinou que em cada cidade e vila do país passasse a existir uma Casa da Roda para recolha sob anonimato de crianças enjeitadas.

Que razões poderiam levar os pais a abdicar dos seus filhos? Em primeiro lugar dificuldades económicas, em segundo o serem filhos ilegítimos, resultados de ligações ilícitas, a maior parte das vezes nas classes sociais mais elevadas, de senhoras fidalgas e mais vezes do que seria de esperar, de freiras.
Havia amas, pagas pelas Câmaras, que as amamentavam e criavam até por volta dos 7 anos, idade com que voltavam para o recolhimento até aos 12. A partir daqui podiam aprender ofícios, emigrar ou servir como criados.

Nunca soube da existência de “Roda” em S. Martinho de Mouros, mas o ofício que segue, publicado no Diário do Governo nº 157, ano 1838, 5ª feira cinco de Julho, parece indiciar ter havido, pelo menos, tentativas de a estabelecer:

Secretaria de Estado dos Negócios do Reino

4ª Repartição

Sua Majestade a Rainha Conformando-Se com o Parecer do Procurador da Coroa sobre as medidas propostas pela Câmara Municipal de S. Martinho de Mouros a favor dos Expostos:

Há por bem Declarar e Ordenar o seguinte:

1º - Que achando-se as Juntas Gerais de Distrito exclusivamente autorizadas pelo artº 77º paragrafo 6º do Código Administrativo e artº 2º do Decreto de 19/9/1836 para designar os pontos em que hão-se ser estabelecidas as rodas de Expostos, deve a câmara requerente dirigir à Junta Geral do respectivo Distrito a sua reclamação acerca da roda que pretende estabelecer no seu Município.

2º- Que as Casas pedidas para o estabelecimento da roda podem ser concedidas provisoriamente pelo Ministério da Fazenda até à decisão das Cortes.

3º- Que a respeito do Depósito Confidencial de Expostos deve observar-se a disposição do artº 8º do Alvará de 18/10/1806 enquanto que pelo poder Legislativo não for alterado ou revogado. O que se participa ao Administrador Geral de Viseu para que nesta inteligência assim o faça cumprir pela sobredita Câmara.

Paço de Sintra, em 4 de julho de 1838

António Fernandes Coelho”

 Não encontrei ainda eventuais desenvolvimentos desta questão. Lá voltarei quando for o caso.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Para onde vamos?


O artigo de hoje de J. Pacheco Pereira no “Público” – Discurso geracional e guerra aos velhos – dá que pensar.

 A chave é a frase constante na moção de Passos Coelho ao congresso do PSD - “Existe uma apropriação dos direitos das gerações futuras por parte das actuais gerações”.

Embora nem sempre concorde com a “visão” de P. Pereira, desta vez acho que escalpelizou muito bem a actual situação.

 Quando em 2015 formos votar nas legislativas, o que nos resta? Que opções de escolha temos? Esse é o drama de todos os que já chegaram aos 60 anos